domingo, 12 de abril de 2009

O Sonho Não Acabou



Em Brasília, surgiu um novo Eldorado. Trata-se de uma montanha que tem em suas entranhas muitas riquezas. Muitas famílias resolveram garimpar esse tesouro em busca de um futuro melhor. Lá não há disputa selvagem entre os trabalhadores, dada a abundância de resíduos a serem explorados.
O sol brilha com muita intensidade naquele local, ofuscando a visão das pessoas, o que às vezes dificulta o processo de coletar as riquezas ali expostas. Lá também existem algumas espécies de pássaros, que, apesar de não saberem cantar, disputam o mesmo espaço com os trabalhadores.
Essa montanha tem um aroma muito forte. As pessoas ficam inebriadas pelo contato permanente com esse cheiro. O fato que mais impressiona na montanha é que, quanto mais se escava, mais riquezas aparecem no local, afinal são muitas toneladas de resíduos despejados todos os dias no lixão da Estrutural.

(Íris Carlos, Letras B 2009)
Fatos

Um homem construiu um palácio em Minas Gerais no valor aproximado de cinqüenta milhões de reais, dinheiro esse que tem muitas suspeitas de serem provenientes de sonegação fiscal e desvio de recursos públicos.
Um homem construiu uma mansão em Brasília no valor aproximado de cinco milhões de reais. Existem fortes suspeitas de serem esses provenientes de negociatas realizadas no Senado Federal do Brasil.
Um homem pretende gastar mais de quarenta milhões de reais, para que uma escola de samba do Rio de Janeiro possa em 2010, desenvolver como tema do desfile de carnaval uma homenagem aos cinqüenta anos de Brasília.
Um homem, ex-sindicalista e Presidente da República, declara na imprensa, conclamando os trabalhadores a não se organizarem para reivindicar reajustes salariais neste ano. “Sei que quando há uma crise econômica e a empresa não está vendendo seus produtos, não há como a gente brigar. Portanto, mais do que fazer uma pauta de reivindicações pedindo aumento, temos que contribuir para que a empresa venda”. E depois de dizer esta marolinha ele sai a viajar pelo mundo como se fosse um Príncipe Regente.
Um homem e sua família trabalham no lixão da Estrutural e moram em um barraco de madeira próximo ao local de trabalho.
Um homem e sua família, todos desempregados, moram na expansão de Ceilândia Norte
e tiveram o seu barraco destruído pelas chuvas de março.
Um homem tem um tipo raro de câncer ósseo e sobrevive com um auxilio-doença pago pelo INSS no valor de um salário mínimo. Quatro crianças que tiveram por destino serem filhos dele, desenvolveram a mesma doença. O pai, preocupado com a situação das crianças, solicitou ao INSS a concessão do auxilio doença para elas, quando foi informado que não seria concedido a elas, pois o pai já recebia um beneficio.
Esses homens têm em comum o fato de pertencerem a espécie humana e morarem em um país onde as autoridades públicas vivem de costas para o povo.

(Íris Carlos, Letras B 2009)

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